Para economistas, menor inflação em 12 meses desde 1999 não é motivo para comemorar


Recessão, crise, desemprego e queda da renda, além do câmbio valorizado e preços dos alimentos, puxam índice para baixo, enquanto preços administrados, como combustíveis, pressionam por alta
 

Com recessão, alto desemprego e queda nos salários, consumo das famílias nos supermercados

São Paulo – A taxa de inflação no país medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que ficou em 2,71% nos últimos 12 meses (o menor índice desde 1999) e 0,24% em julho, após atingir 0,23% negativo em junho, deve ser capitalizada politicamente pelo governo. Porém, para os economistas Guilherme Mello, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e João Sicsú, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os principais fatores responsáveis pelo índice estão longe de ser motivo de comemoração.

Em julho, o grupo Alimentação e Bebidas apresentou queda pelo terceiro mês consecutivo (-0,47%), mas os grupos Habitação (1,64%) e Transportes (0,34%) pressionaram o resultado para cima. A pressão de Transportes foi provocada pelo aumento dos combustíveis, enquanto a energia elétrica puxa o grupo Habitação. Em outras palavras, as contas de luz (+6%), água (1,21%) e combustíveis (0,92%), chamadas de preços monitorados ou administrados, são as que pressionaram o IPCA. Por outro lado, Alimentação e Bebidas com taxa negativa indica o baixo consumo das famílias.

“O que puxa para baixo são os preços relacionados ao consumo e desemprego da população, enquanto o que puxa para cima são os relativos aos preços administrados. O governo não tem nada a comemorar”, diz Sicsú.

Apesar da alta de componentes importantes como os administrados (como contas de luz e gasolina), “o país está atolado na recessão e isso impede que esses aumentos de preço se espalhem pelo resto da economia”, afirma Mello. Para ele, a inflação baixa sofre os efeitos de três fatores: o climático, relacionado com os alimentos; a recessão, que tem a ver com salários e emprego; e o fator cambial. “O governo não pode se gabar, porque os grandes responsáveis pela inflação baixa são a recessão, que é péssima, a valorização cambial, que é um problema no longo prazo, e o preço dos alimentos, que não tem nada a ver com isso, mas com o clima e a safra positiva.”

Assim, na opinião do economista da Unicamp, a inflação é pressionada para baixo por um fator positivo e dois negativos. “As boas safras, não só no Brasil, mas no mundo inteiro, jogam os preços dos alimentos para baixo. Essa é a boa notícia, mas isso não dura para sempre, pois depende do clima.”

Mas, na conta, há dois elementos, “um muito negativo e outro relativamente negativo”. O primeiro é a recessão, a crise, o desemprego e a queda da renda das pessoas. “Se o desemprego não está aumentando mais, está pelo menos em patamares muito elevados, e o subemprego tem crescido muito.” Nesse cenário, as pessoas não compram. “Não há pressão de demanda, as pessoas não estão tomando crédito, não têm renda, não compram. E, mesmo as empresas, não estão comprando. A recessão não é só para as famílias”, diz Mello.

A outra notícia, “relativamente negativa”, é a valorização cambial. O país passou, entre 2014 e 2015, até 2016, por um período de desvalorização do câmbio, lembra o professor da Unicamp. No início de 2016, o dólar chegou a R$ 4. Um ano depois, no começo deste ano, estava cotado a 3,27. Hoje, a moeda norte-americana está em R$ 3,14. Com o câmbio valorizado, os preços dos importados caem, o que ajuda na queda da inflação. “Essa é uma má noticia porque, apesar de parecer bom nossa moeda se valorizar, no longo prazo é muito ruim, já que tira a competitividade das nossas empresas diante dos importados, que ficam cada vez mais baratos. O Brasil exporta cada vez menos manufatura e produto industrial.”

Mello lembra que o governo Fernando Henrique Cardoso e mesmo o governo Luiz Inácio Lula da Silva utilizaram o câmbio valorizado no combate à inflação.  “O problema é que isso foi feito por tanto tempo que nossa indústria foi esfarelando. Hoje, a gente tem a participação da indústria manufatureira no PIB parecida com a década de 40.”

A participação da indústria de transformação no PIB brasileiro era de 11,9% em 1947, chegou a 22% em 1985 e, em 2015, voltava à década de 1940, com 11,40%.




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